Introdução:
Quem conhece a história da colonização portuguesa, não pode deixar de comover-se com as injustiças e violências cometidas contra as populações indígenas, que aqui habitavam antes do descobrimento. Vivia-se na Europa o período feudal e os povos ibéricos (Espanha e Portugal) se haviam lançado na saga marítima da procura de um caminho para as Índias. Mais que uma saga, a descoberta daquele caminho ocorreu numa encruzilhada histórica, porquanto a via terrestre fora praticamente bloqueada pelos bizantinos, que haviam dominado a península da Anatólia. A despeito do esforço da Igreja Católica em catequizar as populações das terras descobertas, os confrontos geopolíticos, envolvendo disputas territoriais e econômicas, fizeram dos povos indígenas das Américas as primeiras e talvez principais vítimas dos confrontos daquele período histórico. O colonialismo luso-espanhol vedou o acesso das colônias ao crescimento econômico. Não fosse a intrepidez das Entradas e Bandeiras, que ultrapassaram o meridiano de Tordesilhas, o território brasileiro seria a metade do que é hoje. Vejamos o que se pode e deve fazer para amenizar os sofrimentos impostos aos indígenas, aos quais até agora se tem negado pleno acesso à civilização e à cidadania.
Efeitos do colonialismo sobre os povos indígenas. A doença, a ignorância, a pobreza, o alcoolismo, tornaram-se companheiros inseparáveis desses povos, aos quais foi negado acesso à saúde, à educação sem preconceitos e às riquezas que a terra lhes pode proporcionar. Até mesmo uma catequese seletiva, que busca preservar-lhes a cultura, costumes e crendices, tem gerado o sincretismo religioso, impedindo-lhes o acesso à Verdade que liberta. Neste quadro se insere a yahuasca, planta que produz um chá alucinógeno consumido por grupos indígenas, já legalmente introduzida no Brasil, com funestos resultados. Organizações não governamentais (ONGs) ditas filantrópicas e de direitos humanos, nacionais e estrangeiras, supostamente indigenistas, tornaram-se intermediárias entre os índios e o governo federal, fazendo entrar em cena ativistas políticos e sociais, autorizados a prestar serviços públicos sem licitação.
Em outubro de 2019 aconteceu em Roma o Sínodo dos bispos para a região Pan- Amazônica. No dia 5, véspera da abertura do sínodo, o cacique macuxi Jonas Marcolino, que tem grau universitário, falando em Roma, defendeu que os índios, sob supervisão do governo federal, sejam autorizados a explorar economicamente suas terras. Que sejam abertas estradas, escolas, hospitais, etc., para que desfrutem da prosperidade que a sociedade ocidental pode proporcionar aos que sabem adotá-la. A catequese católica defende que lhes sejam mantidos a cultura, os costumes, e as tradições religiosas e tribais. Grupos sustentam que índios devem permanecer índios. Daí resultam pobreza, fome e discriminação social. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) endossa a catequese seletiva.
A evolução do conceito de soberania nacional, que legitimou intervenções militares da Organização das Nações Unidas (ONU) em vários países, provocou nas nações periférica acontecimentos inesperados e de fato o mundo globalizou-se tanto para o bem como para o mal. Quem acompanhou os debates na Assembleia Geral da ONU sobre as queimadas na Amazônia, conheceu a retórica inflamada e o viés colonialista do presidente francês, secundado pelo Secretário Geral. Indubitavelmente, as imensas reservas de território indígena, onde existem minerais estratégicos, estimulam a cobiça internacional e explicam a utilização dos índios como massa de manobra em favor de interesses estrangeiros. No Sínodo de 2019, acima citado, ficou muito clara a articulação política entre o governo francês e algumas ONGs, atribuindo ao governo brasileiro indiferença diante das queimadas amazônicas.
Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Em 2007 a ONU aprovou em Assembleia Geral uma Declaração que reconhece o direito dos povos indígenas de seguirem seus próprios costumes, tradições sociais e religiosas, bem como de assumirem a plena cidadania dos Estados que os acolhem. A despeito de algumas ambiguidades no texto, essa declaração abre espaço para que tanto as Igrejas quanto os Estados corrijam algumas impropriedades até agora existentes em processos de catequese que buscam transformar indígenas em cristãos. De fato o evangelho pleno produz mudanças comportamentais.
Conclusão. Estatísticas recentes dão conta da existência de cerca de 900.000 índios no Brasil, dos quais 360.000 vivem fora de terras indígenas. Destes, cerca de 260.000 vivem em cidades e outros 40.000 em aldeias. Em 2016, cerca de 60.000 índios cursavam universidades. Estas estatísticas parecem indicar que os índios se esforçam, cada vez mais, para lidar com questões que lhes dizem respeito. Que podem as Igrejas evangélicas fazer em benefício deles? Antes de tudo, não devem evangelizá-los apenas superficialmente, porque não existe evangelho sem as transformações espirituais e culturais dele decorrentes. O discipulado de indígenas deve ensinar-lhes que essas transformações implicam necessariamente no abandono de crendices, tradições culturais e costumes conflitantes com o novo nascimento, que Jesus enfatizou no encontro com Nicodemos (Jo 3.3). Não podemos negar a essa minoria o direito de enfrentar os desafios da civilização, para integrar-se com dignidade na sociedade que os acolhe. É nosso dever pregar-lhes o evangelho pleno, discipulá-los na obediência aos princípios bíblicos e estender-lhes a mão no sentido de alcançarem a plena cidadania.
Paulo Ferreira é pastor na Assembleia de Deus – Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro

