Introdução:
Partindo-se de um ponto de vista militar, Missão é o elemento impulsionador do emprego de uma força. Consta de duas partes: tarefa e propósito. A tarefa é sempre sintetizada por um verbo, que define o que se vai fazer. O propósito completa a expressão a fim de, possibilitando a perfeita compreensão do que se espera alcançar com o emprego daquela força. Tomemos como exemplo o caso da travessia do rio Jordão. O comandante de Josué, Deus, deu-lhe a seguinte missão: Atravessar o rio Jordão, a fim de possuir a Terra Prometida. (Js 1.2). Tarefa: atravessar o rio Jordão. Propósito: a fim de possuir a Terra Prometida. A missão é o farol que orienta as ações empreendidas. Josué adotou todas as medidas ao seu alcance, com o propósito de conquistar o objetivo dado por Deus. Muitas vezes a Igreja é comparada a um Exército, do qual somos soldados e Deus é o Comandante Supremo.
Importância da preparação do missionário
Quero expor algumas ideias que, mesmo não sendo novas, poderão surpreender a muitos engajados na obra missionária por amor, entusiasmo e fé, mas despreocupados quanto aos métodos e à melhor maneira de fazê-la, pois ao longo de toda a sua história a Assembleia de Deus no Brasil cresceu espontaneamente, sem qualquer planejamento humano. Damos glórias a Deus pelos primeiros obreiros, cujo talento, apesar de pouca ou nenhuma instrução, alimentou e fez crescer o rebanho. O exemplo marcante do nosso crescimento, que ultrapassou outras denominações mais antigas e mais bem aquinhoadas culturalmente, comprova a verdade bíblica de que uns plantam, outros regam, mas é Deus quem dá o crescimento. Não obstante, devemos atentar para o fato de que as modernas técnicas de administração vêm sendo cada dia mais empregadas não só nas Igrejas, mas em muitas outras organizações cristãs. Jesus recomenda o emprego dessas técnicas quando, na parábola da providência, recomenda a quem vai construir uma torre que primeiro faça as contas e veja se tem com que a acabar (Lc. 14.28). Isto significa que devemos lançar mão dessas ferramentas em benefício da Igreja. A obra missionária sofreu influências da desorganização consentida que caracterizou os primórdios da nossa denominação, mas hoje os Departamentos de Missões devem adotar configurações administrativas mais adequadas.
Os apóstolos demonstraram grande sensibilidade administrativa quando instituíram o diaconato. Percebe-se em Atos 6 que não se limitaram a criar um novo cargo na Igreja. Sentiram que o crescimento espontâneo e desordenado dificultava a atividade principal que lhes cabia, o ensino da Palavra, e convocaram homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, capazes de organizar um serviço eficaz. Tais medidas alcançaram tanto a assistência social quanto o envio de missionários. Em consequência, Pedro e João foram enviados a ajudar Filipe em Samaria (At 8.14) o que possibilitou ao Anjo do Senhor retirar Filipe de suas funções para encontrar-se no deserto com o eunuco de Candace (At 8.26-39). Depois, o mesmo Pedro vai a Cesareia para dar assistência a Cornélio, mostrando que a igreja, sob inspiração do Espírito Santo, não fazia as coisas de qualquer maneira. Segue-se a conversão e preparo de Saulo, que, embora intelectualmente bem dotado, precisou de um período relativamente longo, três anos, para melhor conhecer os métodos divinos e para aprofundar a comunhão com Deus (Gl 1.17, 18).
Por tudo isto, falar da importância da preparação do missionário é discorrer sobre o óbvio. Em um mundo interativo e globalizado, onde a tecnologia da comunicação de massa reduziu drasticamente as distâncias, não se pode imaginar alguém atuando em qualquer área, sem profundo conhecimento da causa que defende e da cultura onde vai atuar. Isto implica dizer que ao missionário não basta o preparo teológico. Outro exemplo bíblico está em 2Rs l7.27,28. Um sacerdote judeu capturado pela Assíria é enviado de volta a Samaria, a fim de ensinar aos novos habitantes como deveriam honrar ao Deus de Israel. Por se tratar de culturas diferentes, introduzidas ali exatamente para apagar a cultura israelita, essa missão transcultural fracassou. Apesar de haver o sacerdote executado a tarefa que lhe cabia, não logrou mudar os costumes religiosos introduzidos pelos invasores.
Igrejas evangélicas brasileiras tiveram experiência semelhante, quando, no final do século passado, tentaram se estabelecer na Rússia, após o desmembramento da União Soviética. Tendo enviado missionários pouco qualificados, enfrentaram problemas com outras igrejas cristãs, com as quais não aprenderam a conviver. Concluímos, destas e de outras experiências, que o missionário não deve seguir para o campo sem sólido conhecimento da língua e dos costumes locais. No Guia Prático de Missões, publicado pela CPAD em 2005, encontram-se interessantes narrativas de erros cometidos na obra missionária, simplesmente por desconhecimento da cultura local. A adoção de obreiros nativos deve ser estudada e cuidadosamente negociada com a Igreja local, a fim de agilizar a evangelização e reduzir custos.
Igreja, ONGs, a questão indígena e a ambiental
No Brasil podemos tomar como exemplo o problema dos povos indígenas ainda não alcançados. A FUNAI, órgão que cuida da questão indígena, tem sido criticada por criar obstáculos à evangelização. Considerando-se que os organismos governamentais têm responsabilidades legais específicas, teremos de admitir a necessidade de conhecer e acatar as regras estabelecidas pelo governo no trato com as culturas indígenas. O posicionamento das reservas indígenas na região Norte, situadas sobre imensas jazidas minerais, que a partir da homologação se tornam intocáveis, na prática impõe aos índios a estagnação cultural e veda-lhes o acesso à civilização. Os índios são muito cortejados pelas Organizações Não-Governamentais, as ONGs. Não é raro encontrá-los nas reservas ao volante de poderosas camionetas 4 por 4, cedidas por essas organizações, que parecem interessadas em mantê-los longe da civilização. Em seus depoimentos, índios daquelas reservas dizem que lá “não é Brasil nada…” A Igreja, portanto, deve acautelar-se quanto às agências estrangeiras que se dizem missionárias, e buscar conhecer melhor suas origens e projetos. Existem lugares na fronteira norte onde não se pode entrar sem permissão de ONGs estrangeiras. De igual modo, não podemos perder de vista que as questões ambientais envolvem grandes interesses internacionais. Em fevereiro de 2005 foi assassinada no Pará a freira americana Dorothy Stang, que, embora missionária, representava uma ONG. O governo brasileiro enfrentou problemas diplomáticos durante o julgamento dos assassinos, em face da ingerência da Polícia Federal americana. Naquela ocasião viam-se manifestações de habitantes locais liderados por estrangeiros. Esses episódios devem balizar cuidadosamente a busca da evangelização dos indígenas, para não nos surpreendermos com parcerias embaraçosas.
Missões e Ativismo Político
Nosso coração está na obra missionária, mas reconhecemos que a delegação de competência a agências missionárias, terceirizando tarefas pertinentes à Igreja, tem causado prejuízos à Obra. Precisamos entender que agências missionárias não são igrejas. Seus representantes, ainda que pastores, são contratados para defender interesses estranhos aos da Igreja. Há situações de agências que abrem igrejas e na ausência de titulares qualificados, colocam a pastoreá-las pessoas sem o devido preparo, daí resultando o ativismo político, que desvia o missionário de suas tarefas e compromete a boa reputação da Igreja.
“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude e se há algum louvor, nisso pensai… E o Deus de paz será convosco”. Fil. 4.8,9.
Paulo Ferreira é pastor na Assembleia de Deus – Recreio dos Bandeirantes – R. de Janeiro; Oficial Superior da Marinha, diplomado em Altos Estudos de Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra (ESG) e ex-Conselheiro Militar da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington, EUA.
