EFEITOS RELIGIOSOS DA INVASÃO RUSSA À UCRÂNIA

A guerra assimétrica entre Rússia e Ucrânia demonstra, mais uma vez, a verdade contida na afirmação de Clausewitz (1780-1831): “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Embora os combates se limitem ao território ucraniano, seus reflexos já se propagam pelo mundo. Uma das surpresas desta guerra é a importância do petróleo como fonte de energia, porquanto muitos já o consideram em fase final de utilização. O choque nos preços de seus derivados parece indicar que ainda poderá ser utilizado por muito tempo. Os mercados financeiros já estavam calmos no segundo dia de combates, pois era opinião geral que Volodimir Zelensky, presidente da Ucrânia, não tinha o perfil político de alguém capaz de enfrentar o poderoso exército russo sob a liderança de Vladimir Putin. Tampouco o exército ucraniano dispunha de meios para resistir. A resiliência de Volodimir surpreendeu a todos, inclusive ao seu quase homônimo Vladimir. Passaram-se já três meses sem o tão esperado desfecho da rendição final. O desastre social, político e econômico vai se espalhando por toda a Europa Ocidental, trazido especialmente pelas multidões de fugitivos ucranianos. A mídia de todo o mundo já deu vasta cobertura ao evento, mas está faltando analisar causas e efeitos religiosos que podem ser identificados nesta guerra fratricida. Considerando que os cristãos ocidentais muito pouco conhecem sobre o cristianismo ortodoxo, façamos um breve resumo histórico.

Em 1589 o Patriarca de Constantinopla, ao qual era subordinada a Igreja Ortodoxa Russa, concedeu-lhe autonomia e reconheceu o seu líder como Patriarca de uma Igreja independente. Foi muito conturbada a convivência com o regime czarista. Em 1666 o Estado interveio na Igreja, depôs o Patriarca e em 1721 o patriarcado foi abolido. A Igreja passou a ser uma instituição estatal, situação que perdurou até a revolução comunista de 1917. O novo regime restaurou o patriarcado, que novamente foi abolido em 1925. O regime de Stálin de novo traz de volta o patriarcado, no contexto da segunda guerra mundial. Novas perseguições sob o regime de Khrushchev, quando se fecharam cerca de 12 mil igrejas. Menos de 7 mil permaneciam abertas em 1982, podendo se afirmar que a relação entre o Estado Soviético e a Igreja Ortodoxa Russa foi permeada de censura e perseguição. Extinta a União Soviética em 1991, o cristianismo ortodoxo voltou à sociedade russa, após 70 anos de repressão.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana goza de plena autonomia, mas existem divergências entre o Patriarca de Moscou e o de Kiev, em face de diferenças doutrinárias quanto a liberdade e igualdade de gêneros, algo que também vem ocorrendo em igrejas cristãs ocidentais. O Patriarca Cirilo, de Moscou, apoiou abertamente a decisão tomada por Vladimir Putin de invadir a Ucrânia.

Conclusão

A inexperiência política de Volodimir Zelensky fê-lo tentar o ingresso simultâneo na União Europeia e na Organização do Tratado do Atlântico Norte. A posição geográfica da Ucrânia em relação à Rússia desencadeou a devastadora resposta militar russa.

O noticiário internacional deixa transparecer certo tom religioso na visão do Kremlin, que parece querer justificar a guerra como um esforço da Igreja Ortodoxa Russa em manter-se doutrinariamente conservadora. Cisões que vêm ocorrendo entre as lideranças eclesiásticas russa e ucraniana já criam dificuldades para o estabelecimento de uma paz duradoura.

Recentes exercícios aéreos conjuntos Rússia-China mostram que o desmembramento da União Soviética enfraqueceu a Rússia, que busca fortalecer sua aliança militar com a China, país que também procura estabelecer uma liderança econômica e militar na Ásia e leste da Europa.

 Improvável no curto prazo o ingresso da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Paulo Ferreira é pastor na Assembleia de Deus – Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro

                                                                                                  

Imagem fonte: vaticannews.va

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